O município de Parnaíba passa a contar com uma importante iniciativa da Universidade Estadual do Piauí (Uespi) voltada à modernização da saúde pública por meio da integração entre tecnologia e serviço. Trata-se do PET Saúde – edição Saúde Digital, um projeto de extensão desenvolvido com a participação de estudantes e professores da Uespi, em parceria direta com a rede municipal de Saúde.
A proposta faz parte de um programa do Ministério da Saúde que busca fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) por meio da formação interprofissional e da inovação tecnológica. Segundo o professor Doutor Luís Felipe, do curso de Enfermagem da Uespi, em Parnaíba, o projeto se caracteriza, primeiramente, como uma ação extensionista com forte vínculo social. “Dentro da universidade, a gente considera ele como um projeto de extensão, porque tem uma articulação direta com a comunidade e com o serviço”, explica.

Nesta edição, o PET Saúde está alinhado ao programa SUS Digital, iniciativa que incentiva o uso de ferramentas tecnológicas para qualificar o acesso à informação e a gestão dos serviços. “O Ministério da Saúde lançou, em 2025, um edital específico com eixo voltado à saúde digital, alinhado ao SUS Digital. Anteriormente, existia o PET Saúde Equidade, mas essa nova proposta vem com foco direto na transformação digital da saúde”, contextualiza o professor.
Selecionado em um edital nacional que reuniu mais de 80 propostas de instituições de todo o país, o projeto desenvolvido em Parnaíba se destacou pelo caráter interdisciplinar. “Foi uma construção conjunta entre os cursos de enfermagem, odontologia e computação. O edital exigia essa articulação interprofissional, com pelo menos três áreas e, obrigatoriamente, a presença da tecnologia, o que foi fundamental para nossa aprovação”, destaca. A proposta ficou entre as primeiras colocadas na classificação geral. “Ficamos por volta da 24ª ou 25ª posição, o que mostra a competitividade e a qualidade do projeto”, completa.

A iniciativa também marca um momento inédito no município. “Tenho certeza de que foi a primeira vez que Parnaíba foi contemplada com esse tipo de projeto. É algo que nos orgulha muito, principalmente pelo volume de investimento envolvido”, afirma. Ao todo, são 60 estudantes bolsistas, além de voluntários, tutores e profissionais da rede de saúde envolvidos. “É um projeto muito grande, com um investimento significativo do Ministério da Saúde”, reforça.
O professor também ressalta o esforço coletivo que possibilitou a aprovação da proposta. “Sem a construção conjunta entre os professores dos três cursos e a participação dos estudantes, não teríamos conseguido. Foi um trabalho integrado, com destaque para a coordenação geral e os docentes envolvidos na elaboração do projeto”, pontua.
Um dos principais diferenciais da iniciativa está na forma como ela foi concebida. Diferentemente de projetos desenvolvidos inicialmente dentro da universidade para posterior aplicação, o PET Saúde de Parnaíba já nasce integrado ao serviço público. “Desde a construção do projeto, existe a articulação com o município. Foi firmado um termo de cooperação e os profissionais da rede participam diretamente como preceptores e orientadores. Isso faz toda a diferença, porque a gente constrói soluções junto com quem vive a realidade do serviço”, explica.
Na prática, o projeto é organizado em grupos de aprendizagem tutorial, que reúnem professores, estudantes e profissionais da saúde. Ao todo, são cinco grupos, distribuídos em eixos estratégicos como vigilância epidemiológica, doenças crônicas, imunização e gestão da atenção primária, além de um núcleo tecnológico responsável pelo desenvolvimento das soluções digitais.
Segundo Natan Cunha, estudante do curso de Enfermagem e participante do projeto, um dos maiores desafios enfrentados nos primeiros meses tem sido conciliar a vida acadêmica com a dinâmica interdisciplinar do projeto. “O principal desafio é conseguir se articular com os outros cursos, para que o levantamento de dados, que é esse processo inicial, seja realmente ativado na prática. Precisamos ir aos serviços, conversar com os profissionais e entender a realidade de cada grupo, conciliando horários e métodos entre enfermagem, odontologia e tecnologia”, detalha. Ele ainda complementa a experiência do GT de tecnologia, responsável por oferecer suporte aos demais grupos.
Sarah Cristina, monitora do GT5, explica que o grupo é responsável por articular e apoiar os demais GTs durante a pesquisa. “Dentro desses sete meses de pesquisa, nosso GT ficou responsável por fornecer apoio de pesquisa e acesso aos sistemas utilizados na atenção primária, garantindo que os outros grupos consigam realizar plenamente suas atividades”, afirma.
Kaique, também participante do GT5, complementa que o grupo busca difundir conhecimento entre as áreas trabalhadas no PET – enfermagem, odontologia e tecnologia – e traz segurança na busca de dados já existentes na literatura. A partir disso, repassamos essas informações para os outros GTs, que analisam em conjunto e dão continuidade ao trabalho”. Ele ainda destaca que o GT5 também atua na comunicação com a comunidade, incluindo divulgação do projeto pelas redes sociais, permitindo que a população acompanhe o andamento das atividades e compreenda melhor os objetivos da iniciativa.
Com início em agosto de 2025 e duração prevista de dois anos, o projeto está na fase de diagnóstico situacional. “Nesses primeiros meses, conversamos com os profissionais, conhecemos a realidade e fizemos um levantamento dos principais problemas. Esse diagnóstico é fundamental para que as soluções sejam realmente eficazes”, afirma o professor Luis Felipe.
A partir desse mapeamento, já estão sendo desenvolvidas plataformas digitais que visam agilizar o acesso à informação em saúde. “Hoje ainda existe um atraso no acesso a dados importantes, como os de doenças de notificação compulsória. A nossa proposta é criar ferramentas que deem mais celeridade a essas informações e facilitem o planejamento em saúde”, explica.
Entre as soluções previstas está a criação de uma plataforma com painéis interativos, permitindo que gestores, profissionais e a população acompanhem indicadores de saúde do município. “A ideia é ter um sistema que funcione como um dashboard, onde qualquer pessoa possa acessar e entender a realidade da saúde de forma simples e rápida”, destaca o professor.
No eixo da imunização, o projeto pretende facilitar o acesso da população às informações sobre a vacinação. “Queremos criar uma plataforma que mostre quais vacinas estão disponíveis em cada posto, os horários de funcionamento e a quantidade de doses. Isso evita deslocamentos desnecessários e melhora o fluxo do atendimento”, afirma.
PET-Saúde
O PET-Saúde é uma modalidade do Programa de Educação Tutorial voltada especificamente para a área da saúde. Ele é desenvolvido por meio de uma parceria entre o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação, universidades e serviços do SUS. O principal objetivo é aproximar a formação acadêmica da prática real do sistema público de saúde, promovendo a integração entre ensino, serviço e comunidade.
Os grupos do PET-Saúde são compostos por estudantes de diferentes cursos da saúde, orientados por professores e profissionais do SUS, que desenvolvem atividades como projetos de intervenção, ações de educação em saúde, pesquisas aplicadas e atividades de extensão em comunidades. O programa estimula a interdisciplinaridade, o trabalho em equipe e o desenvolvimento de competências práticas e humanas essenciais para o cuidado em saúde.