O lugar onde uma pessoa nasce pode guardar as lembranças de uma vida inteira, representar o trabalho de gerações e, ao mesmo tempo, ser o ponto de partida para novos sonhos. No Piauí, essas relações aparecem nas histórias de quem acompanhou a chegada de serviços básicos às comunidades rurais, de quem encontrou no empreendedorismo uma oportunidade de independência e de jovens que passaram a enxergar possibilidades para além das fronteiras do estado.
Aos 57 anos, Domingos Reginaldo dos Santos da Silva conhece de perto as mudanças vividas pelo povoado Fazenda Soares, onde nasceu e cresceu. A empresária Glória Maria, de 22 anos, transformou uma habilidade manual em negócio próprio e encontrou no crédito uma forma de ampliar a produção. Já Ingrid Vitória, de 15 anos, estudante do Centro Estadual de Tempo Integral (Ceti) Joel Ribeiro, descobriu em um projeto escolar e nas oportunidades educacionais caminhos para representar o Piauí na Alemanha e projetar um futuro que reúne jornalismo, direito e produção de conteúdo.
São trajetórias diferentes, marcadas por desafios próprios, mas que ajudam a compreender o que significa ser piauiense em um estado que se transforma sem deixar para trás suas raízes.

Memórias de uma vida ligada à terra
Quando Domingos Reginaldo era jovem, a vida em Fazenda Soares era marcada pela dificuldade de acesso a serviços básicos e por poucas alternativas de renda. As ruas eram veredas, não havia água potável nem energia elétrica e o transporte era precário. Para garantir o alimento de cada dia, o trabalho precisava ser constante.
Ao longo das décadas, o presidente da Associação Comunitária do povoado acompanhou mudanças na infraestrutura e nas condições de vida dos moradores. A comunidade passou a contar com água por meio de torneiras e poços tubulares, ruas calçadas e asfaltadas, escolas e um espaço esportivo. Na agricultura, o fortalecimento da produção também ampliou as possibilidades de sustento das famílias.

“Quando eu era jovem, a vida em Fazenda Soares era marcada por muitas dificuldades, principalmente financeiras. A principal fonte de renda das famílias vinha da quebra do coco babaçu e do trabalho na agricultura, atividades que garantiam o sustento de grande parte dos moradores. Apesar de todas essas limitações, havia muita força de vontade, união e esperança de dias melhores”, relembra Domingos.
Entre as transformações de sua trajetória, uma conquista tem significado especial: a segurança de permanecer na terra onde construiu a vida. Durante anos, ele viveu com a incerteza sobre a permanência da família no local. Quando o proprietário vendeu a área onde moravam, os moradores precisaram buscar abrigo em terras pertencentes ao Governo do Estado. Sem documentos que assegurassem a posse, o medo de perder o lugar onde haviam construído suas histórias continuava presente.
A entrega do título de propriedade mudou essa relação com a terra. Com a regularização fundiária realizada pelo Instituto de Terras do Piauí (Interpi), Domingos conquistou a segurança necessária para investir na produção agrícola. Hoje, cultiva macaxeira, melancia, abóbora e feijão, atividades que contribuem para a renda e o sustento da família.
“Receber o título da terra foi um dos momentos mais importantes e emocionantes da minha vida. A regularização trouxe segurança, tranquilidade e a certeza de que poderíamos trabalhar e produzir sem o medo constante de perder aquilo que conquistamos com tanto esforço. O título representa muito mais do que um documento: representa dignidade, segurança, reconhecimento e a oportunidade de prosperar”, afirma.
Para ele, a conquista também representa uma responsabilidade com as próximas gerações. Domingos deseja que filhos e netos valorizem a agricultura, preservem as raízes da comunidade e reconheçam o esforço de quem enfrentou dificuldades para construir condições melhores de vida.

Do trabalho manual à construção de um negócio
A história de Glória Maria começou cedo, com criatividade, disposição para trabalhar e o desejo de transformar habilidades manuais em uma fonte de renda. Natural de Aroazes, começou a vender produtos personalizados aos 15 anos. Durante um ano, fez cortes manualmente para economizar e comprar sua primeira máquina de corte, adquirida aos 16 anos. A partir daí, passou a produzir artigos de papelaria personalizada para festas e eventos.
Hoje, aos 22 anos, Glória mora em Teresina e cursa o sétimo período de Direito. Ao longo da trajetória, precisou se afastar algumas vezes do negócio para se dedicar aos estudos, mas continuou buscando formas de desenvolver a atividade. Em 2026, conheceu o incentivo da Agência de Fomento e Desenvolvimento do Estado do Piauí (Badespi) ao empreendedorismo jovem e decidiu formalizar a empresa como Microempreendedora Individual (MEI).
O acesso ao crédito permitiu investir na estrutura de produção e adquirir máquinas que facilitaram o trabalho e ampliaram as possibilidades de produtos oferecidos aos clientes. Depois de sete anos atuando na área, ela encontrou uma oportunidade de acelerar o crescimento de uma atividade que começou de forma artesanal.
“Já trabalhava há sete anos na área, mas, com a Badespi, consegui evoluir de uma maneira mais rápida. O crédito foi bem aplicado na minha estrutura. Consegui comprar máquinas que ajudaram bastante na produção e trouxeram novas soluções para meu catálogo”, conta Glória.
A evolução do negócio também trouxe mudanças pessoais. A empreendedora destaca que passou a ter mais independência, responsabilidade e confiança no próprio potencial. Além de construir sua autonomia financeira, ela vê na atividade uma forma de contribuir para o comércio local e atender às necessidades de outras pessoas.
Os planos, agora, vão além da ampliação do catálogo. Glória quer consolidar a empresa, crescer no mercado piauiense e, no futuro, gerar empregos e criar oportunidades para outras pessoas. Para ela, empreender no estado significa construir uma trajetória própria e encontrar espaço para transformar uma ideia em atividade econômica.
Uma jovem que quer ampliar os horizontes
Enquanto Domingos olha para as mudanças que acompanhou ao longo da vida e Glória trabalha para consolidar o próprio negócio, Ingrid representa uma geração que deseja ampliar as possibilidades de estudo e realização profissional. No início da trajetória escolar, ela imaginava que concluiria os estudos básicos e depois ingressaria no mercado de trabalho. A participação no programa do Piauí Para o Mundo mudou essa perspectiva e a maneira como passou a enxergar o mundo.

A experiência abriu espaço para novos aprendizados e para a oportunidade de representar a escola e o Piauí na Alemanha. Ingrid também participou de iniciativas estaduais como o Parlamento do Futuro. “Eu imaginava que iria estudar, terminar meus estudos e entrar no mercado de trabalho apenas com a formação básica. O programa Do Piauí para o Mundo me fez dialogar sobre vários assuntos. Representar minha escola e o Piauí na Alemanha foi algo incrível, que eu nunca imaginava que fosse acontecer”, relata.
A estudante atribui parte desse percurso ao apoio dos professores, que a incentivaram a desenvolver suas capacidades e a não duvidar do próprio potencial. Ela também destaca a importância de se dedicar aos estudos e de aproveitar as oportunidades. Para Ingrid, as experiências que viveu ajudaram a reconhecer habilidades que ainda deseja desenvolver, como perder a timidez e ampliar seus conhecimentos.
O futuro que imagina inclui a formação em Jornalismo e Direito, além da produção de conteúdo. Mais do que conquistar objetivos pessoais, ela quer mostrar a outros estudantes, especialmente os da rede pública, que também podem chegar à universidade, construir uma carreira e buscar oportunidades dentro ou fora do estado.
“Quero influenciar os jovens e mostrar que eles podem chegar onde quiserem se batalharem por isso, seja para estudar em uma universidade federal ou estadual, seja para buscar oportunidades em outros lugares. Nos próximos 20 anos, gostaria de ver mais estudantes tendo acesso à educação, se formando e procurando progredir na vida”, afirma.

Um estado feito de histórias e possibilidades
As experiências de Domingos, Glória e Ingrid mostram diferentes dimensões das transformações vividas no Piauí. Na zona rural, a segurança sobre a terra permite planejar a produção e pensar no futuro da família. No empreendedorismo, o acesso a recursos e equipamentos pode acelerar o crescimento de um negócio construído com anos de trabalho. Na educação, o contato com novos conhecimentos e oportunidades amplia os horizontes de jovens que começam a imaginar caminhos que antes eram distantes de sua realidade.
Em cada trajetória, as mudanças coletivas se encontram com escolhas individuais, esforço e expectativas. A regularização fundiária, o incentivo ao crédito e as oportunidades educacionais fazem parte desse percurso quando contribuem concretamente para abrir caminhos, mas são as pessoas que dão sentido a essas conquistas.
O Piauí de ontem permanece nas lembranças de quem enfrentou a falta de serviços básicos e lutou pela segurança de sua terra. O de hoje está nas mãos de quem trabalha para transformar habilidades em oportunidades. E o de amanhã ganha forma nos sonhos de jovens que querem estudar, construir uma carreira e participar das mudanças do lugar onde vivem.