A Secretaria da Segurança Pública do Piauí (SSP-PI) divulgou, nesta terça-feira (31), o 1º Boletim de Dados de Feminicídio no estado. O documento, lançado durante o 1º Seminário de Atualização e Padronização dos Profissionais da Patrulha Maria da Penha, apresenta uma análise aprofundada dos 37 casos registrados ao longo de 2025, consolidando informações estratégicas para o enfrentamento da violência contra a mulher.
O estudo foi elaborado pela Gerência de Análises Estatísticas (GACE) e pela Superintendência de Cidadania e Defesa Social (Sucid), com apoio técnico do Grupo de Pesquisas em Violências de Gênero e Feminicídios (GEPEFEM) e da Sala Lilás da Universidade Federal do Piauí (UFPI).
Os dados revelam que a maior concentração de vítimas está na faixa etária de 25 a 29 anos, com 6 casos (16,22%), seguida pelas idades de 30 a 34 anos, com 5 casos (13,51%). As faixas de 15 a 19 anos e de 40 a 44 anos registraram 4 casos cada (10,81%). Também foram contabilizadas ocorrências entre mulheres mais idosas, incluindo 3 vítimas com idades entre 65 e 79 anos.
Os números sobre a cor da pele das vítimas mostram que 29 eram pardas (78,4%), 3 pretas (8,1%) e 5 brancas (14%). Ao agrupar mulheres pardas e pretas, esse número chega a 32 vítimas (86%), evidenciando a maior vulnerabilidade de mulheres negras à violência letal.
A análise do vínculo entre vítima e autor mostra que 22 dos 37 casos (59,5%) foram praticados por parceiros ou ex-parceiros. Desses, 9 casos (24,3%) envolveram ex-companheiros, 6 casos (16,2%) companheiros atuais e 3 casos (8,1%) cônjuges. Já os vínculos familiares correspondem a 9 casos (24,3%), incluindo irmãos (3), padrastos (2), primos (2), além de genro (1) e sobrinho (1).
Em relação ao local do crime, 22 feminicídios (59,5%) ocorreram dentro de residências, reforçando o caráter doméstico da violência. Outros 7 casos (18,9%) foram registrados na zona rural e 4 (10,8%) em via pública. Também houve registros pontuais em locais como centro urbano, comércio, povoado e até em rio, com 1 caso cada (2,7%).
A distribuição temporal aponta que os domingos concentram o maior número de ocorrências, com 10 casos (27,03%). Em seguida aparecem segunda-feira, quarta-feira e sábado, com 6 casos cada (16,22%); sexta-feira com 3 casos (8,11%) e quinta-feira com 1 caso (2,70%). Quanto ao período do dia, a maior incidência foi registrada à tarde, com 15 casos (40,54%), seguida pela manhã com 12 casos (32,43%) e noite com 8 (21,62%).
O estudo revela que em 29 dos casos de feminicídio (78,4%), a vítima não havia registrado boletim de ocorrência contra o autor.
O município de Teresina concentra o maior número de casos, com 9 feminicídios (24,3%), o que é esperado por ser a capital e a cidade mais populosa do estado. Parnaíba, segunda maior cidade, registrou 6 casos (16,2%). Dom Expedito Lopes aparece com 2 casos (5,4%), e os demais 20 casos distribuem-se por 20 municípios diferentes, cada um com 1 ocorrência.
A análise mensal revela uma concentração expressiva de feminicídios no primeiro trimestre do ano de 2025. Março foi o mês mais letal, com 9 casos (24,32%), seguido por janeiro com 8 casos (21,62%). Somados, os dois meses representam quase metade de todos os feminicídios do ano (45,94%). Fevereiro, julho e dezembro registraram 3 casos cada (8,11%). Os meses de menor incidência foram junho, agosto e outubro, com apenas 1 caso cada (2,70%).
O cruzamento entre o instrumento utilizado e a cor da pele revela diferenças no perfil da violência. Entre as vítimas brancas (5 casos), a arma branca predomina com 3 ocorrências (60%) e a arma de fogo com 2 (40%), não havendo registros de envenenamento ou outros métodos.
Entre as vítimas negras (32 casos, pardas e pretas somadas), a distribuição é mais diversificada: arma branca em 11 casos (34,38%), seguida por outros instrumentos em 12 casos (37,50%), arma de fogo em 5 casos (15,63%) e envenenamento em 4 casos (12,50%).
Para o delegado João Marcelo Brasileiro, o levantamento representa um avanço na produção de inteligência aplicada à segurança pública. “Esse levantamento, baseado em 37 casos, mostra com clareza o perfil das vítimas e a dinâmica dos crimes. A maioria dos feminicídios ocorre dentro de casa, praticados por pessoas próximas, principalmente companheiros ou ex-companheiros. O primeiro boletim de dados de feminicídio é um instrumento que vai auxiliar o Estado do Piauí a enfrentar este crime, bem como reforçar o compromisso da Secretaria de Segurança Pública com a transparência dos dados, buscando maior proximidade com a sociedade civil e também com a academia, por meio das universidades”, pontuou.
Confira aqui o 1º Boletim de Dados de Feminicídio no Piauí
